quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma flor...


Neste fim de mês as coisas vão de mal a pior. Fui pilhado por uma angústia estarrecedora que me abateu. Há exatos sete dias afastei-me do trabalho para me recuperar destes males que me perseguem há algum tempo e que parece não querer se findar. Neste meio tempo, para não ficar sem ter o que fazer, dirigi-me até a livraria da esquina e comprei alguns livros. Aproveitaria, assim, estes momentos para dedicar-me a leitura que há muito não fazia. Punha-me a ler Dostoiévski. No início lia-o febrilmente, de tal modo que, nem sequer almoçava. Perdia-me completamente na leitura.
Entretanto, decorrido certo tempo, a leitura foi se tornando um pouco exaustiva. Estava lendo demais. Resolvi parar. Dar um tempo. Sim, precisava de um tempo. Fui até a Internet à procura de algo que me fizesse relaxar. De início, visitei as páginas de relacionamento, na qual costumo, nas horas vagas, escrever. Lia alguns recados atrasados e respondia outros, mas nada ali me agradava. Eram sempre as mesmas conversas. Não havia nada inovador. Aliás, enquanto vasculhava meus e-mails ouvia algumas músicas do Arnaldo Antunes — na minha época fazia grande sucesso junto a Caetano, Chico, Vinicius e outros.
Saí da Internet. Fui tomar um banho para esfriar a cabeça. Ao sair o interfone tocou. Era o porteiro me avisando que Fernanda chegara e me aguardava. Mandei logo subir. Fernanda era amiga de infância... Tínhamos um caso. Lembro-me que vivíamos fazendo traquinagens na casa de uma tia dela, que há tempos não via. Sentia muito sua falta.
— Olá, Fernanda — disse ao abrir a porta — entre.
Entrou sem nada dizer, como sempre. Sentou-se em uma das poltronas que havia próximo a janela e que ficava ao lado da que costumo sentar.
— Ricardo — foi dizendo ela — eu não aguento mais ficar longe de ti.  Tu disseste que precisava de uma semana para se recuperar e já se passaram duas.
Aquela angústia que não passava tinha nos afastado. Não respondi. Esperei para ver o que ela ia dizer. E como sempre, continuou.
— Minha mãe perguntou por ti. Disse-me que estava com saudades.
Perguntei se queria água. Não quis. Fui à cozinha, coloquei água em um copo e retornei.
— Sabe Ricardo às vezes sinto falta de quando éramos crianças. Naquela época tu gostavas de verdade de mim. Hoje não é a mesma coisa.
Não era verdade. Adorava-a mais que tudo. Certa vez até briguei com um rapaz que havia assobiado para ela. Vinha logo atrás e ele não tinha percebido. Não deu outra. Mas no final ele aprendera a lição. Onde já se viu mexer com mulher na rua.
Sabia também que ela falara aquilo só para me provocar. Gostava de me ver nervoso. Dizia que ficava mais bonito.
— Fernanda, tu sabes que não é assim.
Estava com a blusa que lhe dera no dia de seu aniversário. Adorava vê-la com aquela blusa. Seus cabelos compridos caiam sobre seu busto avantajado e davam-lhe uma maior autonomia.
— Tu sempre dizes a mesma coisa, Ricardo. Quero uma prova.
— Uma prova? — Ela estava insegura — Como assim?
— Se tu gostas mesmo de mim, vai ter que provar.
— O que tu queres que eu faça criatura?
Não sabia em que pensar. Provar para ela que a amava? Será que todos esses anos juntos não eram suficientes para provar?
 — Terás que citar algum poema para mim, agora!
Ela adorava ver-me recitando poemas... Lembro-me de que quando começamos a ter um caso, fazia questão de ler um poema em cada encontro. O pior é que não vinha nenhum em mente, naquele instante. E foi quando ela disse:
— Quero ouvir aquele da flor... Aquele que tu disseste no nosso primeiro encontro.
Confesso que essa não era uma tarefa fácil, mas não foi preciso muito e ao dar por mim já estava recitando:

Tua pele é neve
De perfume singelo
E nos teus brancos espero
Vislumbrar a flor mais bonita

Em tuas canduras tão alvas
Anseio morar meu eterno viver
Tu és minha flor branca rara
É nos teus seios que quero morrer...

Fernanda fitou-me com atenção por alguns instantes e de repente rompeu-se em prantos até então acreditara que eu não iria me lembrar. Levantou-se e veio em minha direção. Sentou-se no meu colo e disse:
— Tu és o mesmo de ontem — deu-me um beijo e levantando-se foi em direção à saída. Antes de fechar a porta, completou —: Amanhã eu volto.
Ao fechar a porta ainda escutei seus passos, afastava-se lentamente. Ia embalada como da primeira vez. Eu, cá fiquei sem saber o que pensar. Amava-a!

                                                                      (Don Ruan Das Vilas Boas)

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