Neste fim de mês as coisas vão de
mal a pior. Fui pilhado por uma angústia estarrecedora que me abateu. Há exatos
sete dias afastei-me do trabalho para me recuperar destes males que me
perseguem há algum tempo e que parece não querer se findar. Neste meio tempo,
para não ficar sem ter o que fazer, dirigi-me até a livraria da esquina e
comprei alguns livros. Aproveitaria, assim, estes momentos para dedicar-me a
leitura que há muito não fazia. Punha-me a ler Dostoiévski. No início lia-o febrilmente,
de tal modo que, nem sequer almoçava. Perdia-me completamente na leitura.
Entretanto, decorrido certo
tempo, a leitura foi se tornando um pouco exaustiva. Estava lendo demais.
Resolvi parar. Dar um tempo. Sim, precisava de um tempo. Fui até a Internet à
procura de algo que me fizesse relaxar. De início, visitei as páginas de
relacionamento, na qual costumo, nas horas vagas, escrever. Lia alguns recados
atrasados e respondia outros, mas nada ali me agradava. Eram sempre as mesmas
conversas. Não havia nada inovador. Aliás, enquanto vasculhava meus e-mails ouvia
algumas músicas do Arnaldo Antunes — na minha época fazia grande sucesso junto
a Caetano, Chico, Vinicius e outros.
Saí da Internet. Fui tomar um
banho para esfriar a cabeça. Ao sair o interfone tocou. Era o porteiro me
avisando que Fernanda chegara e me aguardava. Mandei logo subir. Fernanda era
amiga de infância... Tínhamos um caso. Lembro-me que vivíamos fazendo
traquinagens na casa de uma tia dela, que há tempos não via. Sentia muito sua
falta.
— Olá, Fernanda — disse ao abrir
a porta — entre.
Entrou sem nada dizer, como sempre.
Sentou-se em uma das poltronas que havia próximo a janela e que ficava ao lado
da que costumo sentar.
— Ricardo — foi dizendo ela — eu não
aguento mais ficar longe de ti. Tu
disseste que precisava de uma semana para se recuperar e já se passaram duas.
Aquela angústia que não passava
tinha nos afastado. Não respondi. Esperei para ver o que ela ia dizer. E como
sempre, continuou.
— Minha mãe perguntou por ti.
Disse-me que estava com saudades.
Perguntei se queria água. Não
quis. Fui à cozinha, coloquei água em um copo e retornei.
— Sabe Ricardo às vezes sinto
falta de quando éramos crianças. Naquela época tu gostavas de verdade de mim.
Hoje não é a mesma coisa.
Não era verdade. Adorava-a mais
que tudo. Certa vez até briguei com um rapaz que havia assobiado para ela.
Vinha logo atrás e ele não tinha percebido. Não deu outra. Mas no final ele
aprendera a lição. Onde já se viu mexer com mulher na rua.
Sabia também que ela falara aquilo
só para me provocar. Gostava de me ver nervoso. Dizia que ficava mais bonito.
— Fernanda, tu sabes que não é
assim.
Estava com a blusa que lhe dera
no dia de seu aniversário. Adorava vê-la com aquela blusa. Seus cabelos
compridos caiam sobre seu busto avantajado e davam-lhe uma maior autonomia.
— Tu sempre dizes a mesma coisa,
Ricardo. Quero uma prova.
— Uma prova? — Ela estava
insegura — Como assim?
— Se tu gostas mesmo de mim, vai
ter que provar.
— O que tu queres que eu faça
criatura?
Não sabia em que pensar. Provar
para ela que a amava? Será que todos esses anos juntos não eram suficientes
para provar?
— Terás que citar algum poema para mim, agora!
Ela adorava ver-me recitando
poemas... Lembro-me de que quando começamos a ter um caso, fazia questão de ler
um poema em cada encontro. O pior é que não vinha nenhum em mente, naquele
instante. E foi quando ela disse:
— Quero ouvir aquele da flor...
Aquele que tu disseste no nosso primeiro encontro.
Confesso que essa não era uma
tarefa fácil, mas não foi preciso muito e ao dar por mim já estava recitando:
Tua pele é neve
De perfume singelo
E nos teus brancos espero
Vislumbrar a flor mais
bonita
Em tuas canduras tão alvas
Anseio morar meu eterno viver
Tu és minha flor branca rara
É nos teus seios que quero
morrer...
Fernanda fitou-me com atenção por
alguns instantes e de repente rompeu-se em prantos até então acreditara que eu
não iria me lembrar. Levantou-se e veio em minha direção. Sentou-se no meu colo
e disse:
— Tu és o mesmo de ontem — deu-me
um beijo e levantando-se foi em direção à saída. Antes de fechar a porta,
completou —: Amanhã eu volto.
Ao fechar a porta ainda escutei
seus passos, afastava-se lentamente. Ia embalada como da primeira vez. Eu, cá
fiquei sem saber o que pensar. Amava-a!
(Don Ruan Das Vilas Boas)
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