Há uma diferença pouco clara
entre aquilo que amamos e o que desejamos, entre o objeto de nosso amor e
aquele em que primamos necessariamente pela satisfação dos desejos mais
perniciosos que nos permeiam. A linha é tênue, não obstante, o homem procura
externar sutilmente suas variações e intencionalidades. Sejam através de gestos
ou verbalmente, a título de singelas brincadeiras, quando quem reina é orgulho,
ou num simples olhar ainda que amiúde. O
homem sempre procura externar suas fragilidades e carências.
Certo é que o objeto amado passa, deveras, a ser alvo de muitas idealizações, tornando-se por vezes
divinizado e até casto nalguns casos, mas quanto ao que desejamos nada fazemos.
Este, buscamos de todas as formas e modos. Com agrados e suplicas,
contrariando, assim, nossa “vontade” primária e imperativa: o verdadeiro amor que nos leva de encontro ao próximo na busca pelo Supremo Bem. Uma vez
alcançado, o desejo, não se dá por satisfeito e exige-nos mais. Exige-nos tudo, desde o ar que respiramos até a própria alma se nos descuidarmos. É
completamente destituído de razão. Regozija-se através do instinto e dele
extrai seus meios de perpetuação. Impera a natureza.
E eis que o ciúme surge... Entra em
cena dominante e cheio de si. Fugaz e veloz. Passa a reclamar a posse do objeto
em questão. Ao amado ou desejado ele diz alto e bom som —É meu! — E tudo o mais
é angústia e desolação, pois as perdas são inevitáveis. Tudo o mais não passa
de aflição de espírito, pois o fim é chegado! Afinal, a posse representa
um bem, ainda que provisoriamente. E nisto é que procuramos depositar nossas
forças e esperanças. Nisto é que cometemos o erro pelo ímpeto do desejo
libertino. Enfim, cobiçamos, cegos!
Esquecemo-nos de que ali também
existe um Outro cheio de crenças e expectativas, sonhos e personalidade própria.
Não obstante, geramos o dano! E inclinados somos, ou melhor, sentimos,
estranhamente, a necessidade de também ser fera pela nossa natureza em
decadência. Todavia, foi-nos dito noutros tempos que por falta de entendimento
é que o povo perece. Miserável homem que eu sou, pois amando desejo o que
somente deveria amar!
“O homem é louvado segundo o seu
entendimento, mas o perverso de coração é desprezado”
(Ronan Donato)