segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Miserável homem que eu sou

Há uma diferença pouco clara entre aquilo que amamos e o que desejamos, entre o objeto de nosso amor e aquele em que primamos necessariamente pela satisfação dos desejos mais perniciosos que nos permeiam. A linha é tênue, não obstante, o homem procura externar sutilmente suas variações e intencionalidades. Sejam através de gestos ou verbalmente, a título de singelas brincadeiras, quando quem reina é orgulho, ou num simples olhar ainda que amiúde.  O homem sempre procura externar suas fragilidades e carências.
Certo é que o objeto amado passa, deveras, a ser alvo de muitas idealizações, tornando-se por vezes divinizado e até casto nalguns casos, mas quanto ao que desejamos nada fazemos. Este, buscamos de todas as formas e modos. Com agrados e suplicas, contrariando, assim, nossa “vontade” primária e imperativa: o verdadeiro amor que nos leva de encontro ao próximo na busca pelo Supremo Bem. Uma vez alcançado, o desejo, não se dá por satisfeito e exige-nos mais. Exige-nos tudo, desde o ar que respiramos até a própria alma se nos descuidarmos. É completamente destituído de razão. Regozija-se através do instinto e dele extrai seus meios de perpetuação. Impera a natureza.
E eis que o ciúme surge... Entra em cena dominante e cheio de si. Fugaz e veloz. Passa a reclamar a posse do objeto em questão. Ao amado ou desejado ele diz alto e bom som —É meu! — E tudo o mais é angústia e desolação, pois as perdas são inevitáveis. Tudo o mais não passa de aflição de espírito, pois o fim é chegado! Afinal, a posse representa um bem, ainda que provisoriamente. E nisto é que procuramos depositar nossas forças e esperanças. Nisto é que cometemos o erro pelo ímpeto do desejo libertino. Enfim, cobiçamos, cegos!
Esquecemo-nos de que ali também existe um Outro cheio de crenças e expectativas, sonhos e personalidade própria. Não obstante, geramos o dano! E inclinados somos, ou melhor, sentimos, estranhamente, a necessidade de também ser fera pela nossa natureza em decadência. Todavia, foi-nos dito noutros tempos que por falta de entendimento é que o povo perece. Miserável homem que eu sou, pois amando desejo o que somente deveria amar!

“O homem é louvado segundo o seu entendimento, mas o perverso de coração é desprezado”


(Ronan Donato)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Certamente, Mi Flor!

Lembrar-se-á, certamente,
Que outrora vos fui o autor
De mil louvores, suspiros d'amor?!

Tu mo despediste em quietude vileza
Oh! Luna, quede mimada travessa?!
Fugistes pra brilhar noutro céu!

Embora outrora te tinha mui rica
Desfez-te da graça, querida, per torpe galã?!
Eia o porvir, verrá na infâmia dos cobres!

Eu, Apolo, fui-te de mor esperar prudente!
Mas gran coita o subjugaste; vendestes etéreo amor?!
O que outrora a cantara, em versos, Mi Flor! 
(Ronan Donato)
                                                                       


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Paradoxos da Vaidade e Estultice

DOS HOMENS 

I

Muitas são as filhas dos homens
Em que preço há, e, tantas
Quanto o homem pode achar.
Que importam os números 
Pergunto aos  nobres aos honrados,
São incontáveis as perdidas ao acaso.
Mas como nada que se fizeram, afirmamos:
Filhas da Rebelião são as tais, as desviadas,
Afastam-se das veredas da vida! Insensatas!

II

Raça de Víboras! Destroem as virgens de Sião!
Vai-se mais uma Flor por entre os campos de pedras.
Perde-se mais uma Flor pelos cuidados do mundo,
Impelida pelas matas da corrupção e selvageria humanas!

Quanto a vós, ó amantes da luxúria,
Escravos da matéria, observamos-vos, sim, e
Que o chicote de tal jugo nunca cesse, nem vos deixem descansar,
Pois o Senhor dar-lhes-á o fim a que tanto almejam!
E cada homem provará de sua própria perversidade...

III

Entretanto, aos menos, que desfrutem e gozem da vida, pois no Seol não haverá lembranças. Mas saibam: tudo quanto fizerdes virá a Juízo. Malgrado, para que serve a carne?

IV

O que para vós vos parecerá, acertadamente, loucura, chamar-se-á naquele Dia "certeza da vida". Onde veem paranoia e loucura, ó sapientíssimos, afirmamos contemplar a Verdade e Justiça porvir.

V
Maldito o homem que fui, pois o impaciente faz doidices, ao compartilhar sentimentos tão nobres com aqueles que tiveram seus corações endurecidos e que, penso, ainda não foram exercitados na prática do amor. Pensei, na ocasião, ver nas unidades um elo. Ledo engano. Nalguns houve, se muito, compaixão, noutros egoísmo tacanho e barato. Todavia, a boca fala daquilo de que o coração está cheio, assim faço. Julgaram-me répobro naquele momento. Julgo-me, talvez, deveras religioso e eis que , em verdade, faço-o com certa desenvoltura.

DA ALMA

I

O homem solteiro procura agradar a Cristo, e anseia pelas coisas de Deus; mas os que desejam casamento têm sua confiança no homem, dão preponderância às coisas do mundo. Todavia, se casar não peca.

II

O paciente tornou-se prudente, logo, fez-se amigo da sabedoria. Sim, inclinado a sê-lo, pela graça de Deus. Nisto gloriar-me-ei! Os sentidos só nos entorpecem... Causando-nos, assim, o pior dos males: a doce ilusão do frenesi.

III

Reconhecer-se no antever:
É perder-se em meio ao êxtase
E do cárcere corpóreo ver...
O inatingível mais tangível do universo.

IV

Minha alma encontra-se infinitamente distante do meu corpo. Entre ambos há um abismo intransponível... No meu corpo ela está presa! Não obstante, uso-o como mero instrumento e nele encontro apenas morada passageira. Como eu sei disso, tu me perguntarás, então te direi: eu vi. Alegrar-me-ia se pudesses ver o mesmo, mas temo. Na muita sabedoria há enfado, mas ela preserva a vida daquele que a possui. Quem senão o Grande e Excelso criador dos céus e da terra mostrar-nos-á tamanha maravilha? Quem que nos livrará do poço de lama e miséria em que nós nos encontramos? A Ti, Senhor meu, e Deus meu, é que renderemos graças diante dos homens, obras de tuas mãos. Bem-diremos e exaltaremos o teu santo nome diante de toda assembleia. Toda honra e glórias sejam dadas somente a Ti, Senhor. Amém.

V

Se muito soubéssemos pouco é que diríamos.


(Ronan Donato)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Um afeto virtual

Em meio às suas investigações encontra-se cada vez mais distante da chusma para poder e, com o intuito de apreender o que de verdadeiro se encontra em seus interiores, conhecê-los, ao menos numa das partes, a fundo: as relações na virtualidade do ente. Todavia depara-se com suas superficialidades intransigentes, inflexíveis e irrelevantes que exercendo grande poder de atração vem-no persuadir de suas arguições desviando-o da sua real busca. Aqui a realidade imanente infere-se aos vícios que tanto aflige e que seduz a maioria.
As interações de conduta analisadas nos últimos meses referem-se a comportamentos desordenados e irregulares com sérias perturbações ingeridas por uma série de transtornos desencadeados pelo desejo de felicidade diretamente relacionado ao prazer e que se encontra aspergido e mesclado à ideia de materialidade como fonte principal. Da qual, quase todos, tanto professam religiosamente em adoração.
Veem, assim, em certas relações sua possível redenção e quando não até salvação para livrá-los de tamanho pavor que é deparar-se com a realidade em que vivem além, é claro, de sua ascensão, pois das relações que procuram estabelecer nada pensam senão em tirar proveito. Ademais os verdadeiros sentimentos são relegados ao segundo plano pela simples carência de garantias materiais, pois o entendem, assim, como garantia de continuidade da relação e do próprio sentimento em si. Não obstante, o afeto alheio e desconhecido (geralmente relacionados à atração física e seus apetites) passa a ser visto com bons olhos frente aquele outro, incólume, que na integridade se mantém em reserva (afeto destituído, parcialmente, de atração física).
Eis, aqui, caros leitores uma das possíveis direções a que poderíamos dirigir este pequeno artigo, mas que deixarei para oportunidades vindouras. O presente restringe-se a mera citação dos fatos observados no momento da interatividade afetiva do ser e suas vicissitudes. Entendidas na relação direta e estabelecidas entre a realidade abstrata e a virtual onde a Internet torna-se um canal de mão dupla na personificação do objeto de afeto presente nas vertigens dos sentidos de uma inconsciência inconstante do Eu.
[...]


                                                                                                      (Ronan Donato)

sábado, 29 de junho de 2013

Ela

Ela surgiu tranquila e serena trazendo no peito uma tempestade. Havia me atrasado. Cousa de uns 10 minutos imperdoáveis segundo o que ouvi. Olhava-me de soslaio vez por outra enquanto eu, constrangido, tentava me explicar. Aquele olhar doía-me o peito. É que... Achei melhor não. Continuamos a andar. Íamos jantar num restaurante que havia ali perto. Tencionei fazer algumas graças até que, enfim, consegui. Ela desferiu-me um doce e terno sorriso, assim, como quem vê graça sem ver. Em verdade ria do meu jeito bobo de ser. De tal feita e aos poucos a conversa foi ganhando vida e da tempestade vi os primeiros raios de luz. Luz tênue e branda que daquele olhar emanava-se em minha direção. Ao chegar sentamo-nos numa mesa que havia próximo a um vão e de onde podíamos ver outros andares que se encontravam abaixo. Enquanto nós jantávamos discutíamos sobre política, religião, experiências vividas... Versávamos sobre o tempo e as coisas... Quase tudo em nossos espaços. Desde que chegara sentia-me absorto nalgumas ideias. Ali tudo parecia flutuar... E eu tão somente vivia na tentativa de olhar um futuro belo e distante. Ledo engano, ora. Do futuro eu nada vi senão incertezas quase certas. E na incerteza das certezas é que me encontro. Nela é que quero acreditar. Em ti eu acredito. Após o jantar encaminhamo-nos para a saída. Ainda conversamos um pouco, mas não tínhamos mais tempo e precisávamos ir. Ao partir ela ainda me disse: 
— Não fique triste. Isso não acaba aqui e nós outro dia nos veremos. Desde então não vejo a hora dela voltar... 


                                                                                                      (Ronan Donato)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Caro Pasquim

Já não sei o que fazer ou dizer se é que eu tenha feito ou dito algo que tenha soado insensato para poder me restituir... Tão somente tenho, cada vez menos, certeza do que vejo. E, desta forma, não sei dizer se sou eu que incorro em erro ou se são os derredores que assim o fazem de modo inconsciente.
A verdade é uma só e é nela que permanecerei. Submetendo-me em prol dela aos mais diversos sacrifícios que me são e serão imputados. Jamais excluirei da razão o controle de toda a ação e, principalmente, sobre vis desejos. Preservando-me, assim, em total temperança.
Não obstante, se quisesse analisar a situação segundo o viés analítico que a psicologia exige anseio que não o poderia fazê-lo devido à falta de maiores contatos e observações em escala, ou seja, devido à falta de uma real participação ou compartilhamento de vida. Restando-me somente o amparo das suposições e ilustradas por uma imaginação pouco fantasiosa que no caso já não são tão seguras, pois estão desprovidas de total compatibilidade com a realidade e destituídas de qualquer racionalidade. Um caso particular, de fato.
E desta natureza ao assistir da trama vou-me exasperando... Nada vejo além de ciclos viciosos. Oposições de sentimentos descabidos e insignificantes frente à grandeza do saber. Razão, esta, constantemente silenciada em proporção nacional, sim, falo de gnoseofobia massificada. E nesta loucura é que vive boa parte dos homens — Poupe-me dos seus fricotes, caro Pasquim.

                                                                                                      (Ronan Donato)

quarta-feira, 13 de março de 2013

'Roupa não define moral', Será?


Todas as nossas atitudes, sejam elas comportamentais ou psicológicas refletem na nossa maneira de ver o mundo ou o quão somos influenciados por ele. Poder até não definir moral, mas nos mostra, dependendo da roupa, o quão 'exibicionista' (pode ser entendido como livre arbítrio ou livre escolha) uma pessoa pode ser se é que assim podemos classificar. Uma mulher dotada de certos princípios, eu presumo, não deseja tal exposição, sendo ela, pois consciente de sua beleza ou poder de atração mostrar ao mundo seus 'dotes'. Óbvio, também, é que as mulheres tem por natureza a arte da conquista, digo, fazendo-nos correr de um lado a outro nesta disputa para ver qual macho leva a melhor. Ou seja, aquele que foi escolhido por ela é que lhe garantirá uma prole forte e saudável (instinto biológico).  Eis um dos espectros da vida. Perpetuação da espécie. Voltemos à roupa... Não há a necessidade de se usar micro shorts, minissaias e etc., atendendo assim ao apelo da mídia e da população masculina que de um modo geral as incita. Perceba que sou moralista. Não estou proibindo o seu uso. Todavia, acredito que uma mulher que se preze não necessita (precisa) 'exibir-se'. E de nada adianta ter um belo corpo, pois sabemos que na natureza tudo passa, flui... Um corpo é apenas um corpo (para boa parte dos homens isso já diz muito e até para algumas mulheres). É preciso inteligência por parte das mulheres tanto nas escolhas (roupas que usam), como no modo de vida que levam. Precisam de mais virtudes... Roupas também são textos e que nos dizem muitas coisas.

                                                                                                      (Ronan Donato)