sábado, 29 de junho de 2013

Ela

Ela surgiu tranquila e serena trazendo no peito uma tempestade. Havia me atrasado. Cousa de uns 10 minutos imperdoáveis segundo o que ouvi. Olhava-me de soslaio vez por outra enquanto eu, constrangido, tentava me explicar. Aquele olhar doía-me o peito. É que... Achei melhor não. Continuamos a andar. Íamos jantar num restaurante que havia ali perto. Tencionei fazer algumas graças até que, enfim, consegui. Ela desferiu-me um doce e terno sorriso, assim, como quem vê graça sem ver. Em verdade ria do meu jeito bobo de ser. De tal feita e aos poucos a conversa foi ganhando vida e da tempestade vi os primeiros raios de luz. Luz tênue e branda que daquele olhar emanava-se em minha direção. Ao chegar sentamo-nos numa mesa que havia próximo a um vão e de onde podíamos ver outros andares que se encontravam abaixo. Enquanto nós jantávamos discutíamos sobre política, religião, experiências vividas... Versávamos sobre o tempo e as coisas... Quase tudo em nossos espaços. Desde que chegara sentia-me absorto nalgumas ideias. Ali tudo parecia flutuar... E eu tão somente vivia na tentativa de olhar um futuro belo e distante. Ledo engano, ora. Do futuro eu nada vi senão incertezas quase certas. E na incerteza das certezas é que me encontro. Nela é que quero acreditar. Em ti eu acredito. Após o jantar encaminhamo-nos para a saída. Ainda conversamos um pouco, mas não tínhamos mais tempo e precisávamos ir. Ao partir ela ainda me disse: 
— Não fique triste. Isso não acaba aqui e nós outro dia nos veremos. Desde então não vejo a hora dela voltar... 


                                                                                                      (Ronan Donato)