Ela surgiu tranquila e serena
trazendo no peito uma tempestade. Havia me atrasado. Cousa de uns 10 minutos
imperdoáveis segundo o que ouvi. Olhava-me de soslaio vez por outra enquanto
eu, constrangido, tentava me explicar. Aquele olhar doía-me o peito. É que...
Achei melhor não. Continuamos a andar. Íamos jantar num restaurante que havia ali
perto. Tencionei fazer algumas graças até que, enfim, consegui. Ela desferiu-me
um doce e terno sorriso, assim, como quem vê graça sem ver. Em verdade ria do
meu jeito bobo de ser. De tal feita e aos poucos a conversa foi ganhando vida e
da tempestade vi os primeiros raios de luz. Luz tênue e branda que daquele
olhar emanava-se em minha direção. Ao chegar sentamo-nos numa mesa que
havia próximo a um vão e de onde podíamos ver outros andares que se encontravam
abaixo. Enquanto nós jantávamos discutíamos sobre política, religião,
experiências vividas... Versávamos sobre o tempo e as coisas... Quase tudo em
nossos espaços. Desde que chegara sentia-me absorto nalgumas ideias. Ali
tudo parecia flutuar... E eu tão somente vivia na tentativa de olhar um futuro
belo e distante. Ledo engano, ora. Do futuro eu nada vi senão incertezas quase
certas. E na incerteza das certezas é que me encontro. Nela é que quero
acreditar. Em ti eu acredito. Após o jantar encaminhamo-nos para a saída.
Ainda conversamos um pouco, mas não tínhamos mais tempo e precisávamos ir. Ao
partir ela ainda me disse:
— Não fique triste. Isso não
acaba aqui e nós outro dia nos veremos. Desde então não vejo a hora dela
voltar...
(Ronan Donato)